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18.9.09

Movimento Intencional 3 - Manuel Sérgio

Manuel Sérgio

Motricidade Humana: para esclarecer algumas dúvidas...

"Se alguns dos meus antigos alunos aplicam ao futebol o conteúdo das lições que me escutaram, tal se deve ao facto de só saber de futebol quem sabe mais do que futebol..."
Estrugiu grande risota entre os “sábios” que vão repetindo até ao cansaço aquilo que lhe ensinaram (não passam daí), quando publicamente comecei a discordar, com alguma originalidade (passe a imodéstia), da Educação Física e do Treino Desportivo que me pareciam ser aceites maioritariamente entre os profissionais destas duas áreas. Já lá vão mais de 30 anos! E recordo com emoção o colorau doce das críticas de Nelson Mendes, professor do Instituto Nacional de Educação Física (INEF) de Lisboa, à ginástica tradicional e ainda a publicação do livro de João Paulo S. Medina, A Educação Física Cuida Do Corpo... E Mente, em 1983.

Tenho verdadeiro horror por fórmulas, cânones de escola e tiranias da moda. Demais, quando em 6 de Outubro de 1968, pisei, pela primeira vez, o chão lajeado do INEF, já eu estudara Gaston Bachelard (1884-1962) e sabia portanto que era também descontínua a História das Ciências, ou melhor: que os momentos mais significativos da história de uma ciência acontecem com as rupturas ou cortes epistemológicos, onde, respeitando-o embora, se considera muito do que é Passado um verdadeiro obstáculo epistemológico. Durante a década de 70, com Louis Althusser, aprenderia depois que o corte deveria ser epistemológico porque era político, ou político porque era epistemológico. Por isso, quando defendi a minha tese de doutoramento, em 1986, tinha (tenho) declarados objectivos epistemológicos e políticos. Para mim, conhecer é fundamentalmente encontrar novas vias de acesso à transformação social!



Em Novembro-Dezembro de 1979, na revista Ludens, do Instituto Superior de Educação Física da Universidade Técnica de Lisboa, escrevi um artigo intitulado “Prolegómenos a uma nova ciência do homem”, sucedâneo de uma descoberta por mim efectuada (como sei bem dos meus limites, admito que outras pessoas o tenham visto antes de mim – só que, por defeito meu, as não conheço) que a Educação Física nasce do dualismo antropológico cartesiano. A educação do físico, dentro da perspectiva mecanicista do tempo e a educação do espírito decorriam de costas voltadas, ou seja, para sermos breves, dominava então o “erro de Descartes”. Não foi por acaso que a expressão Educação Física nasceu, depois deste filósofo que viveu entre 1596 e 1650. Os gregos, pura e simplesmente, ignoravam-na. Jerónimo Mercurialis, na sua De Arte Gymnastica (1569), sustenta que, na Grécia Clássica, eram três os tipos de ginástica: a militar, a médica e a atlética.

A Medicina racionalista destinava-se também àquilo que em nós era físico ou matéria tão-só. Por isso, aos médicos lhes chamavam os físicos. Demeny (1850-1917), na sua obra Les Bases Scientifiques de l’Éducation Physique define assim a Educação Física: “O conjunto de meios destinados a ensinar o homem a executar um trabalho mecânico qualquer, com a maior economia possível, no emprego da força muscular”. O cartesianismo, endomingado pela ciência positiva, atingia o século XX e, porque se arrogava de voz activa, prepotente, na Educação Física, de igual modo se assenhoreou do Desporto que passou a reger-se pelos principios em que abunda o Discurso do Método. Demais, os tratadistas da especialidade consideravam o Desporto um dos aspectos da Educação Física...



E em 1968, quando conheci o INEF mais de perto, até pude gracejar para o Prof. Nelson Mendes: “Aqui, o Descartes continua vivo!”. Tinha (tenho) por Descartes grande respeito e admiração. Ele é um dos marcos da História da Filosofia. Denunciava, sem quaisquer outras exprobações, tão-só o referido dualismo antropológico de que a Educação Física é um dos produtos. Até que, no dealbar da década de 80, da releitura atenta e meticulosa da Fenomenologia da Percepção, de Maurice Merleau-Ponty, encontro a motricidade como intencionalidade operante, como movimento intencional da pessoa humana. E, a partir daqui, compus a seguinte definição de motricidade: a energia para o movimento intencional da transcendência (ou da superação). Portanto, para mim (e neste ponto não estou só) motricidade é mais do que movimento – é movimento intencional da complexidade humana!

É afinal o movimento típico da prática desportiva. Fundamentado na motricidade humana, criei uma teorização original (porque não é plágio) da Ciência da Motricidade Humana (CMH), que se desdobra nas especialidades de desporto, dança, ergonomia, educação especial e reabilitação, actividade motora adaptada, etc. Fundamentado ainda na CMH, como ciência humana, pus em causa o treino analítico e sugeri a inexistência do preparador físico, no treino, que seria substituído por um metodólogo do treino, dado que o treino, em todas as circunstâncias, teria em mente a complexidade humana e não só o físico. Mais tarde, descobri, com alegria, que o actual treinador do Inter de Milão também assevera que não tem preparador físico, no seu departamento de futebol. Fui professor de filosofia, não de futebol, de José Mourinho, em 1981! Se alguns dos meus antigos alunos aplicam ao futebol o conteúdo das lições que me escutaram, tal se deve ao facto de (como eu acentuava nas aulas) só saber de futebol quem sabe mais do que futebol...



Por fim, como ciência humana (e não me alongo mais sobre o tema), a CMH quer ser um conhecimento-emancipação, contra a exploração dos poderosos e a tirania do Estado. Sou socialista e democrata. Sei bem onde levam as democracias sem socialismo e os socialismos sem democracia! Neste momento em que o neoliberalismo entrou em crise agónica, estou a ressoar o que também já assumo, sem equívocos, há muitos anos! A CMH é um saber que exige a acção: não propõe apenas um ideal, postula também a procura de meios concretos, para realizá-lo!

*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia

Movimento Intencional 2 -Clotildes Cazé

MOVIMENTO: BASE DA EVOLUÇÃO DA MENTE, DO PENSAMENTO E DO COMPORTAMENTO NOS SERES HUMANOS

Clotildes Maria de Jesus Olveira Cazé*

O livro El cérebro y el mito del yo: el papel de las neuronas en el pensamiento y el comportamiento humanos escrito por Rodolfo Llinás, com prólogo de Gabriel Garcia Márquez, publicado em 2002 pela Editorial Norma em Bogotá, com 360 páginas, doze capítulos, título original “I of the vortex”, traduzido para o espanhol por Eugenia Guzmán, sem tradução para o português, traz entendimentos referentes à evolução e à natureza da mente com base em sua origem no processo de desenvolvimento pelo mecanismo biológico de ensaio e erro em organismos com movimento ativo.

Rodolfo Llinás, MD, PhD, é formado em medicina pela Universidade Javeriana em Bogotá, Colômbia. Chefe do Departamento de Fisiologia e Neurociências da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova Iorque, suas pesquisas tratam da neurociência do nível molecular até o cognitivo.

Questões referentes à importância do movimento intencional1 e suas implicações na evolução do sistema nervoso e no funcionamento cerebral, englobando os PAF2 e os movimentos complexos; a interação entre os aspectos emocionais e a consciência; a interiorização dos universais mediante a interiorização da motricidade; as propriedades intrínsecas das células nervosas; a aprendizagem e memória; a observação das qualias3 do ponto de vista neuronal; o desenvolvimento da linguagem como resultado do pensamento abstrato e idéias referentes à mente coletiva são temas abordados por Llinás.

A idéia discutida por Llinás é a aquisição do movimento ativo e suas implicações no desenvolvimento da mente. Para ele, a aquisição do movimento está ligada à organização e à função dos cérebros e se baseia na integração da motricidade durante a evolução pela ação das propriedades oscilatórias intrínsecas. Esta ação gera a conectividade neuronal que, segundo Llinás, é à base do movimento. O autor explica a condição humana ao afirmar que os seres humanos nascem com um aparato padrão que permite antecipar reações pela formação de imagens sensório-motoras, levando a ações pré-motoras. Llinnás afirma ainda que este aparato foi precableado na espécie pela ação da filogenia4 e da ontogenia5 e que a elaboração da realidade depende do cooperativismo da função cerebral. Ele compara o cérebro a um “maestro” orquestrando uma sinfonia em que cada instrumento tem afinação própria e todos os componentes são necessários. Na função cerebral, assim como na música, o silêncio é tão importante quanto o som. Esse “maestro” não tem a possibilidade de orquestrar permanentemente todas as atividades realizadas pelo corpo em um mundo que cambia a todo instante.

Para Llinás, os seres humanos não têm cérebros, eles são o próprio cérebro. Este pensamento é o ponto chave para o entendimento de função cerebral defendido por Llinás. Desta forma, sua teoria coaduna com o pensamento de Lakoff e Johnson (1999), ao afirmar que todas as informações chegam ao corpo via percepção e são sensório-motoras, ocorre à formação de redes neuronais e um criterioso trabalho de seleção de informação na rede pela capacidade da neuroplasticidade cerebral6.

Llinás é monista7 e afirma que cérebro e mente são eventos inseparáveis, sendo a mente um dos estados funcionais gerados pelo cérebro. O autor percebe a mente como um estado consciente que gera imagens sensório-motoras, resultado da união de toda informação sensorial capaz de produzir um estado que resulte em uma ação. Nesse sentido, ele propõe que o cérebro opera como um sistema autorreferencial, semicerrado, e sugere que o sistema nervoso evoluiu da necessidade dos animais se moverem ativamente.

Llinás corrobora a idéia de consciência e reforça a importância das conexões neuronais no comportamento e no pensamento humano, afirma que seres com movimento ativo utilizam a capacidade antecipatória do cérebro para prever eventos e antecipar respostas motoras para se mover com eficiência no ambiente. Assim, a capacidade de predição é a função primordial do cérebro, sendo o “si mesmo”8 o responsável pelas interações. O autor argumenta que o movimento é resultado das interações preditivas entre cérebro e ambiente e que o cérebro não controla músculos individuais; são as sinergias musculares e os coletivos musculares que “interessam” ao cérebro, se constituindo na base do movimento. São estas interações que possibilitam a reconfiguração dinâmica dos mapas neuronais, incide sobre o sistema motor e permite que a ação dos coletivos musculares se organize de forma transitória e se dissolvam rapidamente segundo as necessidades do momento. Esta ação objetiva poupar esforços e economizar tempo para o “si mesmo”.

A idéia de Llinás se corporifica na propriedade intrínseca da oscilação. Para ele, o conjunto de atividades neuronais que atuam de forma simultânea é a raiz neurobiológica da cognição. Parte do princípio que durante o desenvolvimento cerebral “neurônios que disparam juntos, se conectam juntos” promovem a contemporalidade da ação, sendo a própria consciência. A soma da conjunção espacial e temporal possibilita e potencializa a cognição; conhecer o mapa temporal implica compreender a dinâmica da função cerebral; pela projeção geométrica da realidade do mundo externo no “espaço funcional interno” do cérebro, cria-se uma espécie de realidade virtual.

Llinás defende a idéia dos PAF, ratifica a importância das conexões sinápticas e a formação de mapas neuronais a partir das informações perceptuais que chegam do mundo externo em tempo real, possibilitando uma resposta adequada pela utilização dos PAF em uma ação integrada de estratégia e tática a depender do contexto. Ele afirma que o “si mesmo” não tem tempo de implementar respostas adequadas às necessidades do momento em situações que exijam respostas motoras imediatas.

Além disso, Llinás explica que a capacidade de abstração do sistema nervoso é fundamental para a criação da imagem do “si mesmo” e para cancelar ou modificar um PAF. Para ele, este é um princípio fundamental da função do sistema nervoso. A natureza desses processos está registrado nos padrões filogenéticos adquiridos pelo sistema nervoso ao longo do processo evolutivo; a intencionalidade é o detalhe pré-motor que impulsiona a obtenção de resultados mediante movimentos que expressem estados emocionais e se refere ao ato consciente de escolher o que fazer antes mesmo de fazê-lo.

Desse modo, o ser humano já nasce com os circuitos gerais que possibilitam a sobrevivência. Estes se modificam durante a maturação e se especializam. Llinás explica que não é necessário aprender os circuitos neuronais, pois o tálamo, o córtex e a conectividade entre eles não é algo aprendido e sim herdado. Todavia, os PAF podem ser modificados, aprendidos, recordados e aperfeiçoados ao longo da vida, podendo ocorrer processos de especialização, pois eles estão ligados à memória e à repetição e dependem da experiência das conexões sinápticas. As habilidades para certas ações dependem e estão limitadas por um conglomerado de capacidades presentes no ser humano ao nascer. Com a prática, essas habilidades podem desenvolver-se e serem facilitadas.

Llinás considera as emoções como membros do PAF cuja execução é pré-motora. A tomada de decisão, por exemplo, depende da interação do PAF com o “si mesmo”. Ele entende que se o tônus muscular é a plataforma básica para executar movimentos, as emoções são a plataforma pré-motora que impulsiona ou freia a maioria de nossas ações. Lembra ainda que a geração da criatividade no cérebro é um processo não racional; logo, a criatividade não nasce da razão.

Esta idéia reporta a Damásio (2000) que percebe cognição e emoção como ações de um mesmo corpo com uma única entrada, a percepção sensório-motora. Ele aponta a tomada de decisão como um evento associado a fatos e mecanismos ligados à regulação corporal; que os sentimentos e emoções são percepções diretas dos estados corporais e constituem um elo entre corpo e consciência. Isso reforça a idéia de Llinás que o cérebro parece estar organizado em módulos funcionais, sendo esta uma propriedade intrínseca do aparato cerebral.

Llinás aborda a questão das qualias, a função e necessidade, a ligação com os PAF; questiona se a ciência compreenderá os sentimentos e afirma que as qualias são estruturas funcionais simplificadas pelas propriedades intrínsecas dos circuitos neuronais cerebrais. Em uma perspectiva evolutiva, percebe a importância das qualias no estudo da função cerebral e refuta a idéia que somente as formas superiores de vida são dotadas de qualias. Para ele, a relação entre as qualias e a estrutura evolutiva funcional cerebral é intrínseca; sendo as qualias primordiais para a organização global do sistema nervoso.

Compreender o jogo de interação entre filogenia e ontogenia na construção dos seres que possuem movimento ativo justifica esta leitura por profissionais que atuam em educação, especialmente os que trabalham com o corpo e as múltiplas possibilidades de aprendizagem.

Perceber que estes conhecimentos podem reorganizar conceitos de ensino-aprendizagem, observando os fatores limitantes e a possibilidade de atuação consciente a partir destes entendimentos de corpo é o que faz este livro interessante, mesmo não tendo seu foco voltado para a educação. Todavia, é possível buscar uma pedagogia do movimento, visando ao desenvolvimento das potencialidades humanas, começando pelo entendimento dos fatores potencializadores e limitantes da função cerebral.

Ao término da leitura percebe-se o diferencial da ação conjunta da filogenia e da ontogenia no processo evolutivo da espécie humana e as suas implicações no contexto de desenvolvimento da mente e da aquisição do movimento na construção do conhecimento. A filogenia e a ontogenia atuam conjuntamente na evolução da espécie. A filogenia, em seu trabalho de seleção natural, congrega aos aspectos genéticos tudo aquilo que acontece ao longo do desenvolvimento de uma vida e é importante para a evolução da espécie. A ontogenia é a responsável por estes eventos. É o aprendizado contínuo, diz respeito ao indivíduo e depende das interações entre o corpo e o ambiente.

Diante dos argumentos, entende-se que a mente é interativa, funciona em rede pela conectividade, ampliando as capacidades cerebrais e buscando a unificação perceptual. Em suma, para Llinás, o pensamento é a interiorização evolutiva do movimento e acontece pela capacidade de predição do cérebro, sendo necessário para a permanência da espécie na Terra.

NOTAS

* Mestra em Dança pela Escola de Dança/UFBA, especialista em Ginástica Rítmica pela UNOPAR e em Psicopedagogia pela UFRJ e graduada em Educação Física pela UCSal.

1 Movimento intencional caracteriza-se por ser um movimento antecipatório, inteligente e dirigido para uma meta; é indispensável para que a ação aconteça (LLINÁS, 2002).

2 PAF: Os padrões de ações fixas são reflexos elaborados que agrupam reflexos inferiores em sinergias e quando ativados produzem movimentos bem delimitados e coordenados que permitem ao “si mesmo” economizar tempo pelo uso de estratégias e táticas que possibilitam escolhas adequadas à sobrevivência (LLINÁS, 2002).

3 Qualias se refere à qualidade das entidades, a experiência sensorial. Termo utilizado pelo filósofo Willar Quine para indicar o caráter subjetivo da sensação gerada pelo sistema nervoso (LLINÁS, 2002).

4 Filogenia está relacionada à informação genética; tudo que foi desenvolvido ao longo do processo evolutivo, diz respeito à espécie. A capacidade de conhecimento, a capacidade de aprender.

5 Ontogenia se refere a tudo que acontece no desenvolvimento de uma vida. É o aprendizado contínuo e diz respeito ao indivíduo; depende das interações entre o corpo e o ambiente.

6 Neuroplasticidade cerebral refere-se à capacidade de adaptabilidade a novas situações.

7 Monista: aquele que está ligado ao monismo. A palavra “monismo” é usada para indicar toda doutrina ou sistema de pensamento que afirme certa unidade de explicação (redução a um só princípio, a uma só causa, a uma só tendência ou direção) para um domínio limitado de idéias ou de fatos (JACOB, 1990).

8 “Si mesmo”: o centro da predição que surge a partir das interações no cérebro entre o sistema motor e o emocional.

REFERÊNCIAS

DAMÁSIO, A. R. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. Tradução de Dora Vicente e Georgina Segurado. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

JACOB, A. Encyclopédie Philosophique Universelle. Paris: PUF, 1990.

LAKOFF, G.; JOHNSON, M. Philosophy in the Flesh: the embodied mind and its challenge to western thought. New York: Basic Books, 1999.

LLINÁS, R. El cérebro y el mito del yo: el papel de las neuronas en el pensamiento y el comportamiento humanos. Tradução de Eugenia Guzmán. Bogotá: Editorial Norma, 2002. 360 p.

Movimento Intencional 1 - Harry Frankfurt

Acção e intenção

A complexidade do movimento corporal só sugere acção quando nos faz pensar que o corpo, durante o seu movimento, está sob a direcção do agente. Executar uma acção é, assim, um acontecimento complexo, que inclui um movimento corporal e o estado de coisas ou actividade que constitui a direcção que o agente tem sobre esse movimento. Dado um movimento corporal que ocorre sob a direcção de uma pessoa, a pessoa está a executar uma acção independentemente das características da sua história causal prévia que derem conta do facto de isso estar a ocorrer. A pessoa está a executar uma acção mesmo que esta ocorrência se deva ao acaso. E não está a executar uma acção se os movimentos não estiverem sob a sua direcção à medida que se desenrolam, ainda que a própria pessoa tenha fornecido as causas antecedentes — sob a forma de crenças, desejos, intenções, decisões, volições, ou seja o que for — de que resultou o movimento.

* * *

Quando agimos, os nossos movimentos têm propósito. Isto é apenas outra maneira de dizer que o seu curso é dirigido. Muitos casos de movimento com propósito não são, é claro, casos de acção. A dilatação das pupilas dos olhos de uma pessoa quando a luz esmorece, por exemplo, é um movimento com propósito; há mecanismos que controlam o seu curso. Mas a ocorrência deste movimento não marca a execução de uma acção pela pessoa; as suas pupilas dilatam, mas não é a pessoa que as faz dilatar. Isto acontece porque o curso do movimento não está sob a sua direcção. A direcção, neste caso, é atribuível apenas à operação de um mecanismo com o qual a pessoa não pode ser identificada.

Usaremos o termo "intencional" para referir casos de movimento com propósito em que a direcção é fornecida pelo agente. Podemos então dizer que a acção é movimento intencional. A noção de movimento intencional não pode ser confundida com a de acção intencional. O termo "acção intencional" pode ser usado, ou melhor, mal usado, simplesmente para indicar que uma acção é necessariamente um movimento cujo curso está sob a direcção de um agente. Quando é usado desta forma, o termo é um pleonasmo. Num uso mais apropriado, refere-se a acções que são levadas a cabo mais ou menos deliberada ou cuidadosamente — isto é, a acções que o agente tenciona executar. Neste sentido, as acções não são necessariamente intencionais.

Quando uma pessoa tenciona executar uma acção, o que ela tenciona é que ocorram certos movimentos intencionais do seu corpo. Quando estes movimentos ocorrem, a pessoa está a executar uma acção intencional. Pode-se dizer que ela está então a dirigir os movimentos do seu corpo de uma certa maneira (assim, está a agir), e que ao fazê-lo é guiada pela sua intenção e está a levá-la a cabo para fazer precisamente isso (assim, está a agir intencionalmente). Nada parece haver na noção de movimento intencional que implique que a sua ocorrência tem de ser intencionada pelo agente, seja através de previsão seja através de assentimento consciente. Se isto for correcto, as acções (isto é, os movimentos intencionais) podem ser executados intencionalmente ou não.

Dado que a acção é movimento intencional, ou comportamento cujo curso está sob a direcção de um agente, uma explicação da natureza da acção tem de lidar com dois problemas diferentes. Um é explicar a noção de comportamento dirigido. O outro é especificar quando a direcção do comportamento é atribuível ao agente e não simplesmente a um processo local que ocorre no corpo do agente, como quando as pupilas de uma pessoa dilatam porque a luz esmorece. O primeiro problema diz respeito às condições sob as quais o comportamento tem propósito, ao passo que o segundo diz respeito às condições sob as quais o comportamento com propósito é intencional.

O condutor de um automóvel guia o movimento do seu veículo agindo: vira o volante, carrega no acelerador, trava, etc. Ao invés, dirigir os nossos movimentos, quando agimos, não exige que executemos várias acções. Não controlamos os nossos corpos como um condutor controla o seu veículo. Caso contrário a acção não poderia ser concebida, sob pena de gerar uma regressão infinita, como uma ocorrência de movimentos que estão sob a direcção de um agente. O facto de que os nossos movimentos, quando agimos, têm propósito não é o efeito de algo que fazemos. É uma característica da operação nesse instante dos sistemas que somos.

O comportamento tem propósito quando o seu curso é objecto de ajustamentos que compensam os efeitos das forças que de outro modo interfeririam com o curso do comportamento, e quando a ocorrência destes ajustamentos não é explicável pelo que explica o estado de coisas que provoca a sua existência. O comportamento está nesse caso sob a direcção de um mecanismo causal independente cuja prontidão para produzir ajustamentos compensatórios tende a assegurar que o comportamento é consumado. A actividade de tal mecanismo não é normalmente, é claro, dirigida por nós. Ao invés, constitui, quando executamos uma acção, a nossa direcção do nosso comportamento. O nosso sentido da nossa própria agência quando agimos não é mais do que o modo como nos sentimos quando estamos de algum modo em contacto com a operação de mecanismos deste tipo, pelos quais os nossos movimentos são guiados e o seu curso garantido.

Explicar o comportamento com propósito em termos de mecanismos causais não é equivalente a propor uma teoria causal da acção. Para começar, a actividade pertinente destes mecanismos não é anterior aos movimentos que dirigem mas sim simultânea. Mas em qualquer caso, não é essencial para o carácter de propósito de um movimento que seja realmente afectado causalmente pelo mecanismo sub cuja direcção o movimento tem lugar. Um condutor cujo automóvel esteja a descer um monte em virtude apenas da força da gravidade pode estar inteiramente satisfeito com a sua velocidade e direcção, e por isso pode nunca intervir para ajustar o seu movimento. Isto não mostraria que o movimento do automóvel não ocorreu sob a sua direcção. O que conta é que o condutor estava preparado para intervir se fosse necessário, e estava em posição de o fazer com mais ou menos eficácia. Analogamente, os mecanismos causais que estão prontos a afectar o curso de um movimento corporal podem nunca ter oportunidade para o fazer; pois pode não ocorrer qualquer retorno negativo do tipo que originaria a sua actividade compensatória. O comportamento tem propósito não por resultar de causas de um certo tipo, mas porque seria afectado por certas causas se o seu curso corresse o risco de não se efectivar.

Harry Frankfurt
Tradução de Desidério Murcho
"The Problem of Action", in The Importance of What we Care About, Cambridge, 1998, pp. 73–75. Originalmente publicado na revista American Philosophical Quarterly, 15 (1978).